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"Tinha preconceito com a TV", diz Caco Barcellos

segunda-feira, 25 de agosto de 2008


Quem vê o jornalista Caco Barcellos, 58, no comando do programa "Profissão Repórter", da Globo, não imagina que o repórter, que já foi correspondente internacional por seis anos, teve dificuldade para se adaptar ao telejornalismo. "Tinha preconceito com a TV, onde é tudo muito rápido. Sofri no começo, mas logo me adaptei", contou.


Em entrevista à Folha Online, Barcellos fala com prazer de sua carreira, que começou em jornais e revistas e depois seguiu para a televisão. Ele afirma não ter planos para o futuro, mas não pretende se aposentar.


O jornalista, nascido em Porto Alegre (RS) e autor de livros premiados como "Rota 66" e "Abusado", comentou também como era o trabalho durante a ditadura militar (1964-1985), a atuação da polícia após a publicação de seu livro, "Rota 66" e histórias de sua carreira.


Folha Online - Você trabalhou em jornais e revistas, mas prosseguiu na televisão. Já havia essa preferência pelo telejornalismo ou a vida o levou a esse segmento?


Caco Barcellos - Trabalhei dez anos no impresso e tinha preconceito com a TV. Era um apaixonado pelo texto. Naquela época alguns veículos publicavam 40 laudas! Entre 1979 e 1980 morei em Nova York (EUA), daí fiquei mais interessado em televisão. Como vinha de revista, estranhei no começo: antes tinha três horas para pensar em uma frase. Na TV é tudo muito rápido. Sofri no começo, mas logo me adaptei e estou até hoje.


Folha Online - Como foi trabalhar no regime militar?


Barcellos - Na época dos militares, os gabinetes de autoridades eram extremamente fechados. Hoje, é o contrário: eles são muito abertos, o que é perigoso, pois o jornalista fica à mercê de interesses políticos. Foi um período muito rico, pois tínhamos de contar a história com as fontes oficiosas. Quanto mais longe do gabinete, mais chance de se aproximar da verdade. Pessoas simples nos recebiam e denunciavam. Hoje, com o programa, a gente pratica isso.


Folha Online - Em sua opinião, houve mudança na atuação da polícia após a publicação do seu livro, "Rota 66"?


Barcellos - No Rio, mudou para pior. Em São Paulo estão matando menos, mas ainda há grupos que resistem e continuam no esquadrão da morte. Mas houve uma evolução: antes, eles eram julgados pelos militares. Agora, o julgamento é semelhante ao civil.


Folha Online - Há alguma história curiosa dos tempos de correspondente internacional?


Barcellos - Em 1979, fui cobrir um acidente nuclear em Three Mile Island [Ilha de Três Milhas, na Pensilvânia], nos Estados Unidos. Fiquei impressionado: era uma tragédia, algo que podia atingir a toda a humanidade. Havia uma área gigantesca de gado, e a radiação afetou a grama que o gado comia. Conseqüentemente, contaminaria o leite, a carne e uma fábrica de chocolates que funcionava no local.


Uma cena que eu nunca vou esquecer é a cidade sendo esvaziado. Quando cheguei, vi de um lado da estrada os carros em fila, um congestionamento enorme, todos querendo fugir. A outra pista estava vazia, apenas eu e um grupo de latinos. Fui como voluntário. Pretendo voltar lá quando esse caso completar 30 anos [março do ano que vem] para ver como está.


Folha Online - Há algum projeto ainda a realizar?


Barcellos - Não tenho planos que vão além de uma semana. Estou envolvido apenas com o programa. E não pretendo me aposentar.


Folha Online - O que gosta de fazer quando não está trabalhando?


Barcellos - Adoro ler. Tenho lido muita coisa relacionada às pautas. Gosto de jogar futebol, passear, andar sem rumo. Não abro mão de me envolver nas reportagens, mas gosto de vagabundear, ficar sem fazer nada.


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