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César Tralli: 'Não tenho privilégios em minhas reportagens'

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Entrevista realizada pelo Blog Patrícia Kogut

Noites mal dormidas, 16 horas de trabalho por dia, mais de sete mil páginas de documentos analisadas, gravações de escutas telefônicas ouvidas com toda a atenção. Esta foi a rotina do repórter César Tralli, da TV Globo, nas últimas duas semanas, desde que começou a Operação Satiagraha, da Polícia Federal. Foram presos — e depois soltos — nomes de peso do cenário político-econômico do país, como o banqueiro Daniel Dantas, do banco Opportunity, o investidor Naji Nahas e o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta.


Tralli acompanhou tudo bem de perto e, desde o início do escândalo, assinou algumas das reportagens mais importantes sobre o caso nos principais telejornais da Globo, sempre com informações e material exclusivos. Segundo o repórter, fruto de um trabalho de um ano.— Há um ano eu soube que a Polícia Federal estava investingando estas pessoas. Acompanhei a história, meio de longe, fazendo outras coisas ao mesmo tempo, mas já me preparando para o desfecho final. Tentei, ao longo de todos esses meses, cercar ao máximo essa história, buscando informações em diversas frentes — conta Tralli.


A busca por fontes diferenciadas, de acordo com o repórter, foi um dos trunfos da cobertura.


— Procurar as informações em diversos locais foi a nossa diferença nesse caso. Eu tenho essa iniciativa, de não ficar preso a uma só fonte. Procuro buscar a história inteira, não fico dependendo de uma pessoa ou instituição. Seria muito arriscado apostar na informação de apenas um dos envolvidos, nesse caso. Minha apuração ficaria incompleta e, pior, comprometida


— analisa o repórter, que se especializou em reportagens investigativas após deixar o posto de correspondente da Globo em Londres, onde trabalhou entre 1995 e 2000.
Para ele, reportagens investigativas na TV devem seguir uma regra simples: as provas exibidas devem ser incontestáveis.


— Como trabalhamos com a imagem, temos que apostar no "batom na cueca". É o nosso jargão televisivo, a prova deve ser incontestável. É o dinheiro encontrado na casa de quem vai pagar a propina, a gravação que mostra o acerto entre as partes. Não podemos especular. Temos que ter acesso às provas, para exibi-las durante as reportagens — afirma ele.


O repórter refuta as acusações de que teria um tratamento privilegiado dentro da PF.


— Estar no lugar certo na hora certa, como aconteceu nesse caso, não é fruto de um tratamento privilegiado, mas de muito trabalho, de informações, aí sim, privilegiadas. Não é só a PF que conta detalhes de investigações como essas. Mantemos contato com os advogados dos acusados, com funcionários de empresas ligadas aos investigados, temos fontes espalhadas em diversos locais relacionados à apuração do caso — revela.


Aos 37 anos, Tralli acaba de completar 15 anos de TV Globo. Com uma pontinha de decepção (ele deixa escapar durante a entrevista), vai abandonar as reportagens investigativas para cobrir sua segunda Olimpíada. A viagem para Pequim é nesta quarta.


— Já devia ter ido, só não fui porque estourou o caso do Dantas. Vou passar mais de 40 dias lá. Não vou com uma pauta pré-definida. Geralmente, a equipe é dividida e cada repórter cobre três ou quatro modalidades. Na prática, isso raramente acontece, ficamos mesmo ao sabor dos acontecimentos — informa ele.


O que Tralli já sabe, de antemão, é que não vai acompanhar os brasileiros, normalmente cobertos por repórteres da editoria de Esportes da TV.


— Ah, eu nunca fico com o Brasil. Eu e o Ernesto Paglia (também repórter) quase sempre fazemos reportagens de comportamento ou sobre a atuação dos atletas estrangeiros. Também costumo fazer os esportes que o Brasil tem pouca tradição, como esgrima — diz ele, que não conhece a capital chinesa e só pratica "esportes de academia".


O trabalho nos Jogos é puxado.


— A demanda é muito grande. O dia começa às 7h e não tem hora para acabar, normalmente entramos pela madrugada. Mas é bom sair da rotina. Gosto de cobrir esses eventos, é sempre muito interessante. A gente se envolve, torce pelos atletas, se emociona com eles — garante o repórter, que, além das Olimpíadas de Atenas, esteve nas Copas do Mundo de 1998, 2002 e 2006.


Fonte: Patrícia Kogut

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