Entrevista realizada pelo Blog Patrícia Kogut
Noites mal dormidas, 16 horas de trabalho por dia, mais de sete mil páginas de documentos analisadas, gravações de escutas telefônicas ouvidas com toda a atenção. Esta foi a rotina do repórter César Tralli, da TV Globo, nas últimas duas semanas, desde que começou a Operação Satiagraha, da Polícia Federal. Foram presos — e depois soltos — nomes de peso do cenário político-econômico do país, como o banqueiro Daniel Dantas, do banco Opportunity, o investidor Naji Nahas e o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta.
Tralli acompanhou tudo bem de perto e, desde o início do escândalo, assinou algumas das reportagens mais importantes sobre o caso nos principais telejornais da Globo, sempre com informações e material exclusivos. Segundo o repórter, fruto de um trabalho de um ano.— Há um ano eu soube que a Polícia Federal estava investingando estas pessoas. Acompanhei a história, meio de longe, fazendo outras coisas ao mesmo tempo, mas já me preparando para o desfecho final. Tentei, ao longo de todos esses meses, cercar ao máximo essa história, buscando informações em diversas frentes — conta Tralli.
A busca por fontes diferenciadas, de acordo com o repórter, foi um dos trunfos da cobertura.
— Procurar as informações em diversos locais foi a nossa diferença nesse caso. Eu tenho essa iniciativa, de não ficar preso a uma só fonte. Procuro buscar a história inteira, não fico dependendo de uma pessoa ou instituição. Seria muito arriscado apostar na informação de apenas um dos envolvidos, nesse caso. Minha apuração ficaria incompleta e, pior, comprometida
— analisa o repórter, que se especializou em reportagens investigativas após deixar o posto de correspondente da Globo em Londres, onde trabalhou entre 1995 e 2000.
Para ele, reportagens investigativas na TV devem seguir uma regra simples: as provas exibidas devem ser incontestáveis.
— Como trabalhamos com a imagem, temos que apostar no "batom na cueca". É o nosso jargão televisivo, a prova deve ser incontestável. É o dinheiro encontrado na casa de quem vai pagar a propina, a gravação que mostra o acerto entre as partes. Não podemos especular. Temos que ter acesso às provas, para exibi-las durante as reportagens — afirma ele.
O repórter refuta as acusações de que teria um tratamento privilegiado dentro da PF.
— Estar no lugar certo na hora certa, como aconteceu nesse caso, não é fruto de um tratamento privilegiado, mas de muito trabalho, de informações, aí sim, privilegiadas. Não é só a PF que conta detalhes de investigações como essas. Mantemos contato com os advogados dos acusados, com funcionários de empresas ligadas aos investigados, temos fontes espalhadas em diversos locais relacionados à apuração do caso — revela.
Aos 37 anos, Tralli acaba de completar 15 anos de TV Globo. Com uma pontinha de decepção (ele deixa escapar durante a entrevista), vai abandonar as reportagens investigativas para cobrir sua segunda Olimpíada. A viagem para Pequim é nesta quarta.
— Já devia ter ido, só não fui porque estourou o caso do Dantas. Vou passar mais de 40 dias lá. Não vou com uma pauta pré-definida. Geralmente, a equipe é dividida e cada repórter cobre três ou quatro modalidades. Na prática, isso raramente acontece, ficamos mesmo ao sabor dos acontecimentos — informa ele.
O que Tralli já sabe, de antemão, é que não vai acompanhar os brasileiros, normalmente cobertos por repórteres da editoria de Esportes da TV.
— Ah, eu nunca fico com o Brasil. Eu e o Ernesto Paglia (também repórter) quase sempre fazemos reportagens de comportamento ou sobre a atuação dos atletas estrangeiros. Também costumo fazer os esportes que o Brasil tem pouca tradição, como esgrima — diz ele, que não conhece a capital chinesa e só pratica "esportes de academia".
O trabalho nos Jogos é puxado.
— A demanda é muito grande. O dia começa às 7h e não tem hora para acabar, normalmente entramos pela madrugada. Mas é bom sair da rotina. Gosto de cobrir esses eventos, é sempre muito interessante. A gente se envolve, torce pelos atletas, se emociona com eles — garante o repórter, que, além das Olimpíadas de Atenas, esteve nas Copas do Mundo de 1998, 2002 e 2006.








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